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Piora do cenário afeta expectativa para 2009 - 10/11/2008

O Comitê de Acompanhamento Macroeconômico da ANDIMA, integrado por economistas de diversas instituições financeiras, está divulgando as novas projeções para a economia brasileira em 2008 e 2009.

Variáveis 2008 2009
Média Média
Taxa SELIC (média % a.a.) 12,54 14,13
Taxa SELIC em Dezembro (% a.a.) 13,96 13,63
Desvalorização cambial (%) 15,1 2,0
PTAX em 31/12 2,0389 2,0806
Dólar Médio 1,7827 2,0700
IPCA (%) 6,36 5,23
IGP-M (%) 10,95 5,89
     - IPA-Industrial (%) 14,93 5,68
     - IPA-Agrícola (%) 5,62 5,02
Balança Comercial (US$ bilhões) 24,7 14,2
     - Exportações 203,7 204,5
     - Importações 179,1 190,3
Saldo de Transações Correntes (% PIB) -1,8 -2,1
(em US$ bilhões) -28,7 -33,0
Investimento Externo Direto (US$ bilhões) 34,2 26,4
Reservas Internacionais (Liq. Intern.) - US$ bi 199,8 194,7
Risco-País (EMBI) - em pontos 381 302
Resultado do Setor Público - Primário  (% PIB) 4,4 3,8
Resultado do Setor Público - Nominal  (% PIB) -1,6 -2,0
Dívida Líquida do Setor Público (% PIB) 39,1 38,7
Taxa de Crescimento do PIB (%) 5,2 2,8
     Agropecuária (%) 5,4 3,5
     Indústria (%) 5,4 3,1
     Serviços (%) 4,8 3,0
     - PIB R$ Bilhões 2873 3140
Taxa Média de Desemprego Aberto - IBGE (%) 7,9 8,4
Produção Industrial - Indústria Geral/IBGE (% no ano) 5,6 3,2

Cenários para a Economia - Outubro/2008

Cenário médio

A comparação dos cenários econômicos na reunião de outubro em relação ao último encontro do Comitê, em agosto, está pontuada pela forte deterioração das expectativas dos analistas, decorrente do agravamento da crise financeira internacional a partir de meados de setembro. Foi consenso que o comportamento dos indicadores econômico-financeiros não vem obedecendo a uma lógica baseada nos fundamentos econômicos, o que prejudica, muitas vezes, a percepção quanto à evolução dessas variáveis. De qualquer forma, essas projeções acabam refletindo o alcance da crise e o timing do seu processo de reversão.

No tocante ao cenário de curto prazo, houve uma mudança brusca nas previsões de câmbio, seja de tendência ou de magnitude. Neste caso, houve uma correção da trajetória do câmbio para 2008, de uma valorização de 8,5% para uma desvalorização de 15,11%, o que resulta em uma cotação de R$ 2,0389 para o final do ano. Esse movimento, entretanto, não implicou correção substancial nas previsões de inflação (o IPCA subiu de 6,33% para 6,36% e o IGP-M de 10,91% para 10,95%), nem para o saldo da Balança Comercial (de US$ 25,5 bilhões para US$ 24,7 bilhões) para o ano de 2008.

A manutenção de uma taxa de variação do PIB acima de 5% para este ano não é resultado de uma eventual flexibilização dos juros ou de expectativas positivas dos analistas do Comitê, mas sim da percepção de que esse nível de crescimento já está “contratado” entre os agentes da economia e que ajustes mais fortes nos pacotes de investimentos ocorrerão a partir do ano que vem.

As projeções para 2009 mostram o grau de incerteza no que diz respeito à trajetória da economia e refletem uma desaceleração do ritmo de crescimento da atividade econômica (as previsões caíram de 3,5% para 2,8%). Esse movimento é reforçado pela manutenção de um patamar mais baixo para o saldo da Balança Comercial para aquele período (cerca de US$ 14,2 bilhões). A constatação é de que um possível incremento de competitividade dos produtos exportáveis com a desvalorização do real frente ao dólar (está previsto um aumento de 5,2% da taxa de câmbio) seria contrabalançado pela redução do ritmo de crescimento da economia mundial.

Por outro lado, a desaceleração da economia deve proporcionar uma queda dos índices de inflação, em função de um provável desaquecimento da demanda. As previsões de IPCA e IGP-M em níveis inferiores aos de 2008 (5,23% e 5,89%) são condicionadas à forma em que ocorreria o mecanismo de contaminação por meio do câmbio.

Outros dois aspectos relevantes devem ser considerados nessa piora de cenário: uma redução do superávit primário, fruto de uma política crescente de aumento de gastos por parte do governo e que se tornou mais premente em face da necessidade de medidas de estímulo a determinados segmentos da economia; e uma maior dificuldade de financiamento das contas de Transações Correntes (previsão de déficit de 2,1% do PIB em 2009), resultado da já mencionada queda na Balança Comercial. Trata-se de dois indicadores de solvência que, embora estejam em níveis distantes para apontar um eventual estrangulamento, são decisivos no que se refere à avaliação de sustentabilidade de crescimento para os próximos anos.

Panorama internacional

As incertezas em relação ao cenário externo se transformaram em perplexidade com a insolvência da Lehman Brothers a partir de meados de setembro. Desde então, as previsões quanto à performance da economia mundial passam por questões que fogem à racionalidade econômica e evidenciam uma crise de confiança no sistema financeiro internacional.

A avaliação predominante desse cenário é a de que o mundo passa por um forte processo de desalavancagem financeira e de que as empresas e instituições de todos os segmentos da economia vêm buscando uma estratégia de preservação de capital. Tal quadro implica uma forte procura por ativos que embutem menor percepção de risco, como os treasury bonds do governo norte-americano. Esse viés tem sido a tônica dos movimentos financeiros e é potencializado em mercados internacionais que se encontram undersold (com mais recursos do que títulos disponíveis em mercado).

No tocante às perspectivas da economia norte-americana, a possibilidade de recessão é considerada provável, dados os últimos resultados do PIB. Os sinais de melhora de setores que foram cruciais para a eclosão da crise, como o de habitação, ainda não reverteram as expectativas pessimistas e apontam para um cenário de desaquecimento, que deve se prolongar até meados de 2009.

Conjuntura doméstica

No que se refere ao cenário doméstico, um dos motivos de preocupação dos economistas do Comitê é a interrupção do fluxo de recursos pelo canal de crédito e a forma com que essa situação vem afetando o nível dos investimentos na economia. O empoçamento de liquidez no sistema financeiro decorreria de uma postura de precaução dos agentes, que normalmente se intensifica em momentos de maior incerteza. Desta forma, é importante que as iniciativas do governo para estimular o aumento da liquidez não passem por medidas de caráter compulsório, já que podem acabar sinalizando ao mercado uma percepção errônea de risco sistêmico.

Quanto às expectativas de inflação, é consenso que a crise tem caráter inflacionário para a economia brasileira, com transmissão para os preços via taxa de câmbio. É importante lembrar, entretanto, que o processo inflacionário pode ser atenuado pela redução do nível de atividade e pela queda dos preços das commodities.

No debate sobre inflação, foi ressaltado que deve ser levada em conta a questão do hiato do produto, que, no caso brasileiro, pode estar perto de sua capacidade máxima, com possíveis efeitos inflacionários. O timing desse processo será o grande indicativo para o mecanismo de transmissão para os preços, já que uma possível redução do nível de atividade poderia amortecer a inflação, que, por sua vez, estaria pressionada por uma taxa de câmbio mais alta. Porém, parte dos analistas alerta que o efeito do câmbio nos preços é mais rápido em situações como esta, agravado pelo fato de que a economia brasileira hoje apresenta um coeficiente de bens importados maior do que em períodos passados.

Considerações finais

A estratégia que o Banco Central adotará nesses períodos de incerteza deverá ainda ser de cautela, pelo menos no curto prazo. A maioria dos integrantes do Comitê acredita que haja novo aumento dos juros no final do ano. Entretanto, deve ser considerada a possibilidade de que a convergência para o ponto central de 4,5% das metas de inflação não aconteça em 2009.

Comitê de Acompanhamento Macroeconômico
Diretor responsável: Daniel Gleizer
Presidente: Marcelo Salomon - Unibanco

Assessoria de Comunicação da ANDIMA
Cláudio Accioli e Ana Cristina Freire
Telefone: (21) 3814-3838 - Fax: (21) 3814-3960
E-mail: assessoria@andima.com.br



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